A Importância de um Psicólogo que Conheça as Medicinas
A escuta especializada é essencial após vivências com Ayahuasca e cogumelos. Entenda por que isso faz diferença.
Um campo que exige escuta especializada
As experiências com Ayahuasca, cogumelos e outras medicinas da floresta são diferentes de qualquer outra vivência terapêutica convencional. Elas envolvem não apenas o psíquico, mas o simbólico, o espiritual, o corporal e o ancestral. Por isso, contar com um psicólogo que compreende esse território faz toda a diferença.
Em atendimentos clínicos, é comum ouvir relatos como: "Eu me vi como uma árvore, e senti que minhas raízes estavam presas" ou "uma voz me disse que eu precisava perdoar minha avó, mas não entendi bem o porquê". Para quem não tem familiaridade com o universo simbólico das medicinas, essas frases podem parecer delírios ou metáforas vagas. Já para um psicólogo com escuta preparada, esses relatos se tornam chaves preciosas de compreensão profunda.
Há também situações em que a pessoa sai da cerimônia em estado de fragilidade psíquica, com emoções desorganizadas ou estados alterados de percepção que duram dias. Nesses casos, o acolhimento com base em protocolos convencionais pode ser insuficiente — ou até prejudicial. A escuta especializada permite reconhecer o que está em jogo e oferecer o suporte adequado sem romper com a potência da experiência.
Quando a linguagem muda, muda também a escuta
Quem vivencia estados expandidos de consciência muitas vezes encontra dificuldade em colocar em palavras o que viveu. As imagens são simbólicas, os sentimentos são amplos, as memórias são fragmentadas. Um psicólogo que não conhece esse universo pode reduzir a experiência a um delírio, um surto, ou simplesmente não saber o que fazer com aquilo.
Símbolos como cobras, casas antigas, rios escuros, mulheres sábias, seres luminosos ou animais falantes — todos são frequentes nesses relatos. Outros trazem metáforas espontâneas como "me senti enterrado vivo e depois renasci do barro" ou "era como se minha dor fosse uma pedra quente dentro do meu peito". Esses elementos não pedem interpretação imediata, mas presença e escuta.
Traduzir esse conteúdo simbólico para o campo terapêutico exige delicadeza. Não se trata de explicar tudo, mas de sustentar o mistério enquanto ele se desdobra. Um psicólogo com repertório simbólico e abertura ao invisível ajuda a dar contorno à vivência sem forçá-la a caber em conceitos prontos. Assim, a linguagem da alma encontra espaço para ser ouvida com respeito.
O que um psicólogo com experiência nesse campo oferece
- Validação da experiência sem patologizar ou banalizar
- Escuta aberta ao simbólico e ao espiritual
- Compreensão dos contextos rituais, dos saberes indígenas e dos limites éticos
- Apoio na integração psíquica, emocional e corporal do que foi vivido
O risco da escuta despreparada
Uma escuta despreparada pode ter efeitos nocivos. Quando visões espirituais são tratadas como delírios ou quando a pessoa é incentivada a esquecer ou negar o que viveu, há um corte no fluxo de integração. Isso pode gerar confusão interna, sensação de isolamento e até quadros de angústia prolongada.
Há casos em que a pressa em "corrigir" o estado emocional da pessoa leva à medicalização precipitada ou à internação, mesmo quando o que ela precisa é simplesmente de escuta, tempo e apoio adequado para atravessar o processo.
Outras vezes, a pessoa deixa o consultório com a sensação de que sua experiência foi ridicularizada ou ignorada. Isso pode fazer com que ela se feche ainda mais, interrompa o processo terapêutico ou busque caminhos menos seguros para continuar sua jornada. Quando o espaço terapêutico não valida o vivido, a pessoa pode perder a confiança não só na terapia, mas também em si mesma e na experiência que teve.
Integração exige ponte, não corte
A psicoterapia não deve cortar o fio da experiência, mas ajudá-lo a se entrelaçar com a vida cotidiana. Um psicólogo que compreende as medicinas pode atuar como essa ponte — entre o mundo da cerimônia e o mundo do dia a dia, entre o invisível e o concreto.
Exemplo disso é quando a pessoa vivencia uma visão intensa de reconexão com a natureza, mas volta ao cotidiano se sentindo perdida, sem saber como trazer aquilo para sua vida prática. O psicólogo pode ajudar a transformar essa visão em pequenas ações: cuidar de uma planta, mudar hábitos, olhar para sua relação com o corpo e o tempo.
Outro exemplo: alguém que experimenta um profundo perdão simbólico durante a cerimônia pode, na terapia, começar a reconhecer como esse perdão se traduz nas suas relações reais — com a família, com o passado, com a sua própria história. A ponte não é apenas entre mundos, mas entre camadas da própria existência. E é nessa travessia que o sentido se revela.
Conclusão: conhecimento que acolhe
Mais do que um título, o que importa é a postura. O psicólogo que conhece as medicinas da floresta sabe que está diante de algo vivo, potente e delicado. Sua escuta é uma oferenda — que pode transformar a experiência em caminho.